O foguete de papel caiu pela quinta vez. Nina cruzou os braços, jogou-se sentada no chão da sala e decidiu, ali mesmo, que nunca mais ia tentar de novo.

Tempo de leitura: cerca de 4 minutos. Uma história para ler com crianças de 3 a 8 anos, principalmente naqueles dias em que alguma coisa não sai do jeito que elas queriam.

Nina e o Foguete que Não Voava

Fazia três dias que Nina só falava de uma coisa: o foguete que tinha visto no vídeo do primo mais velho, aquele que subia reto até bater no teto e descia rodopiando. Ela queria o dela igualzinho.

Pegou papel, fita e um rolinho de papelão. Dobrou, torceu, colou. Soprou com toda a força pela abertura de baixo — e o foguete só balançou, tombou de lado e caiu a um palmo do chão.

Tentou de novo. Dessa vez trocou o papel por um mais grosso. Caiu ainda mais rápido.

Na terceira tentativa, Nina já não estava mais soprando com força — estava batendo o pé. “Não presta”, ela resmungou, e empurrou os pedaços de papel para o canto do tapete.

Foi aí que o avô dela, Seu Joaquim, apareceu na porta da sala com dois copos de suco.

— Posso sentar aí com você? — perguntou, já se abaixando antes mesmo de ouvir a resposta.

Nina só deu de ombros, do jeito que as crianças fazem quando estão bravas mas também não querem ficar sozinhas.

Avô e criança montando um foguete de papel juntos na mesa

Seu Joaquim pegou um dos foguetes tombados e olhou por um bom tempo, virando de um lado para o outro.

— Sabe o que eu acho engraçado? — disse ele. — Que ninguém nasce sabendo fazer foguete de papel voar. Nem o seu primo. Aposto que o dele também caiu um monte de vezes, só que ele não filmou essa parte.

Nina franziu a testa. Nunca tinha pensado nisso.

— Mas o meu não presta — ela insistiu, com a voz mais fina, quase de choro.

— Ou ele só ainda não aprendeu a voar — respondeu o avô. — Presta atenção: toda vez que ele caiu, a gente descobriu uma coisa que não funciona. Isso não é o foguete sendo ruim. Isso é a gente ficando mais esperto.

Ele pegou o foguete e apontou para a ponta, toda torta.

— Olha aqui, por exemplo. A ponta dele está pesada de um lado só. Por isso ele desvia. Você tinha reparado nisso?

Nina se aproximou, ainda emburrada, mas curiosa. Olhou de perto. Era verdade: a ponta estava enrolada torta, mais grossa de um lado.

— Vamos tentar arrumar só essa parte? — sugeriu Seu Joaquim. — Não o foguete inteiro. Só a ponta.

Dessa vez, Nina não tentou fazer tudo de novo do zero. Desenrolou só a pontinha, com cuidado, e enrolou de novo, tentando deixar do mesmo jeito dos dois lados. O avô segurava o rolo firme enquanto ela colava a fita.

Quando terminaram, ela respirou fundo antes de soprar — dessa vez sem tanta força, sem tanta raiva. Só soprou.

O foguete subiu reto, bateu de leve no teto e desceu rodopiando, exatamente como no vídeo do primo.

Nina deu um pulo tão grande que quase derrubou o suco do avô.

— Consegui! Consegui, vô!

Criança sorrindo orgulhosa segurando o foguete de papel pronto

— Você conseguiu — confirmou Seu Joaquim, rindo. — Só demorou até o foguete te contar o que ele precisava.

Nina passou o resto da tarde soprando o foguete, pegando, ajeitando a pontinha quando ele desviava de novo, soprando outra vez. Cada queda agora era só uma pista. Não dava mais tanta raiva.

Na hora de dormir, ela levou o foguete torto e remendado para o quarto e deixou em cima da cômoda, bem à vista, para olhar assim que acordasse.

Conversando com seu filho depois da história

Histórias como a da Nina rendem boas conversas na hora de dormir — sem virar sermão, só um bate-papo de alguns minutos. Algumas perguntas simples que podem abrir essa conversa:

  • “Já aconteceu de você tentar fazer alguma coisa e não dar certo de primeira? O que você sentiu?”
  • “O que você acha que o foguete da Nina estava tentando contar pra ela, quando caía?”
  • “Tem alguma coisa que você quase desistiu de aprender, mas depois conseguiu?”

Não é preciso tirar uma lição pronta no final — às vezes basta deixar a pergunta no ar e ver o que a criança responde. O importante é que ela perceba, na própria voz, que errar faz parte de aprender qualquer coisa nova, do foguete de papel à letra cursiva.

Se a leitura de hoje render, guarde este cantinho de histórias para voltar sempre que alguma tarefa da semana — um dever de casa difícil, um laço de tênis que não amarra — vier acompanhada de frustração. Às vezes, lembrar da Nina e do foguete torto já ajuda a respirar fundo e tentar mais uma vez.